03 Novembro 2006

CAVEIRA - Cena Espírita/Quebranto


fotografia de Pedro Alfacinha, retirada do myspace da banda


O regresso da Sonoridade Crítica, um regresso que se deseja lesto e expedito, faz-se ao som dos portugueses CAVEIRA e dos seus mais recentes CD-R, Cena Espírita e Quebranto.
Como é desejável em qualquer caso, para não enodar o prazer de saborear novas sonoridades, a audição quis-se limpa de conhecimentos anteriores, do zumbir de críticas e do deslizar evaporante de comentários mais ou menos obscuros espalhados pelo rasteiro mundo electrónico. E dessa audição, que veredicto?
Poder-se-á dizer que ouvir estes sons é como analisar a fundo um modelo clástico que representasse as sonoridades actuais que vingam numa franja alargada do que comummente se entende por música, e que especam essa mesma música sem se limitarem a ser bagaço fácil numa cada vez mais industrializada gestão artística. Mas se as sonoridades em si são um espeque, um esteio viril do planalto sonoro hodierno, sê-lo-á também o uso que delas fazem os CAVEIRA?
Para ser franco, a audição repetida deste trabalho, forte e roaz, levanta problemas. A espaços lembrou-me de certa forma uma clavina (em dupla acepção, pelo tonitruar acutilante que a banda traz, mas também pelo contrair físico que se espalha ao longo da duração das suas faixas) auditiva.
No fundo, após diversas audições, uma sensação clara começa a manifestar-se, como que em círculos concêntricos, de raio minguante, apontando a um cerne específico no total e pleno centro do conhecimento crítico: mais do que um popa, estes CAVEIRA ficam-se por ser uma alvéloa.
E é pena, pois claramente poderia não ser assim.

06 Dezembro 2005

Bright Eyes - Motion Sickness-Live Recordings



Há dias em que o amargo do passar do tempo nos crispa os lábios e eriça os pelos, como se uma brisa traiçoeira nos avelhentasse sem que nos apercebessemos, como se num rodopio as luzes do alto se afundassem num breu calculado sem sonhos, tangendo cordas dolorosas, supurando-nos por dentro até nada mais restar que um ponto, infinitamente grande e infinitamente pequeno, um zero absoluto, o nada do qual de súbito nasce o tudo, o depois a nascer do antes, como a cochonilha a depender do tunal.
São os dias em que afinal a brisa é suave - e quente; os dias da sargola perdendo-se no marulhar gentil. Os dias que sobram quando tudo o mais se foi, sem deixar saudades nem dizer adeus, perdendo-se numa bruma canhada para longe por mãos calejadas do ardor da labuta intemporal.
Dias e discos assim. Como este.

28 Novembro 2005

Phoenice

Tempos inditosos têm assolado este lado do blog.
Felizmente, com maior ou menor periodicidade, recomeça o ciclo - seguirei com as actualizações. Há um tempo já descomedido que a Sonoridade Crítica hiberna - acorde-se então!

28 Dezembro 2004

Devendra Banhart - Rejoicing In The Hands



Quando, por entre a gritante multidão de lançamentos de confrangedora qualidade que de forma impudica nos assalta dia após dia, surge com arroubo um segredo de brilho intenso, diadema sonoro por entre deslapidados compassos de trivialidade boçal, é mais do que motivo de rejúbilo. Assim é com Rejoicing In The Hands, terceiro trabalho de Devendra Banhart, depois de "Oh Me Oh My...The Way The Day Goes By The Sun Is Setting Dogs Are Dreaming Lovesongs Of The Christmas Spirit" e do EP "The Black Babies".
Neste feérico conjunto de canções, damos por nós mergulhados na imensidão de um sonho fecundo e tenaz, de fronteiras adormecidas pelos inebriantes adejares das trovas de Devendra. Ao invés de se arrochar numa estética maniqueísta e limitadora, aqui há música surgida na alvadia zona entre o uivo e o suspiro, entre a seca tensão do garruncho e a leveza singular do asfódelo. Em dezasseis instantes de graciosa bonomia, Devendra capacita a intensa e perplexa libertação das redes vorazes que consomem o diurnal afagar do interior sensorial e da comunhão telúrica e humana. E nós, surgindo como sequazes do seu frágil trinar, damos por nós erguidos, já não velados mas antes de luzerna brilhando forte no âmago.
É pena a infeliz raridade de momentos assim.

22 Dezembro 2004

Stealing Orchestra - Bu!



Os Stealing Orchestra, de quem já se falou aqui na Sonoridade Crítica, enveredaram pela criação de uma net-label própria - a "You Are Not Stealing Records", através da qual já editaram dois EPs: Bu! e The Haunted And Almost Lost Songs 97-98.
Tendo tido oportunidade de ouvir o primeiro, pareceu-me que seria merecedor de referência. Neste conjunto de sete canções, cruza-se o habitual estilo de colagem histriónica multidimensional das luxuriantes paisagens imagetico-sonoras da banda com todo o decadente imaginário do terror cinéfilo. Mescla subtil de apaixonantes reservas, torna-se viciante a tentativa de clivar estes propostos temas - banda sonora para um filme que parecemos reter num canto desfocado da mente, qual imago sombrio que nos assalta os sonhos, a música de "Bu!" leva-nos num aclive estonteante, mergulhando-nos a fundo no caldo espesso dos frios e cortantes medos secos, entumescidos, que por um lado nos desassisam mas por outro nos fazem tripudiar. A viagem é absorvente, envolta no esguio pingar de compassos foscos e codas zurzindo, e levando-nos até ao final, enfim soltos mas arrepiados.

Amália Revisited



Recente discussão no Fórum Sons acerca da validade do fado enquanto canção de cariz nacional (contra a expressão puramente regionalista de uma Lisboa que ainda não é todo o país) lembrou-me de falar deste disco.
Nessa discussão, escrevi o meu ponto de vista da seguinte forma:
"O vector geográfico não pode ser levado ao extremo da lineariedade - como medir a distância? como absolutizar um conceito abstracto e relativo? Quão distantes teremos de estar de Lisboa nessa ordem de ideias para nos afastarmos da sua esfera de influência e deixarmos de ter o fado como referência? O fado é uma forma de expressão de raízes profundas, que se estendem longe na distância. Como expressão da soedade e da negra melagkholía é um acertado fulcro gerador de uma proximidade intra e extra popular - não só como agregador de sensibilidades tradicional e historicamente comuns, mas também como quasi-indutor de uma certa paronímia multi-racial consagrada em diversos estudos sobre o tema.
Quanto mais não fosse por estes argumentos, julgo que deveria haver algum pundonor no tratamento do fado e não tanto a guisa inane a que tão tristes vezes é votado."

Ao ouvir Amália Revisited parece-me que é fácil corroborar estes argumentos. O CD apresenta uma peculiar intromissão da sonoridade actual no universo fadista de Amália Rodrigues, provando não apenas a possibilidade de enastrar duas cronologias distintas de sons, ideias e concretizações, mas também - e sobretudo - a ideia de que o fado e a modernidade que aqui se apresenta são no fundo colaços inseparáveis. Aqui apeira-se uma capa de gritante inovação a estes 15 temas, nota a nota constrói-se um edifício apendoado de saudade, daquele chocalhar do telúrico e do urbano salpicados da inconfundível melancolia que define no fundo esta forma de canção, esta estranha forma de vida.
O fado é português? O fado é de Lisboa? O fado é o fado - invulgar grandeza planando num horizonte texturado de finas planícies e um choro que se insinua num rasgar a medo de sentidos olhares, postos num mar que se contorce de vazios tristes e pulantes instintos de amores vadios. E é tudo isso - sob um ponto de vista neo-revisionista - que se ouve aqui, neste vaticinal CD.
Ainda bem.

06 Dezembro 2004

The Gift - AM-FM



Ainda no último post comparava o regresso da Sonoridade Crítica a uma puérpera e eis que também os Gift surgem de novo, dando à luz AM-FM, o seu quarto álbum depois de Digital Atmosphere (1997), Vinyl (1998) e Film (2001).
Curiosas coincidências à parte, dediquemos então um momento de análise a este conjunto de canções que chegam de Alcobaça - balaço desferido com donaire ou bisa inane?
A uma primeira vista, "AM-FM" apresenta-se como um singular edifício bipolar de arquitectura complexa erguida sobre sólidos alicerces, através do qual a música vai ocupando um lugar de alpondra, levando-nos pela mão de forma segura. Toda a espiral sonora fabricada pela banda geme num rodízio simultaneamente florido e gritante, ritualizando uma experiência dual e altamente simbólica, oscilante, num putativo garrochar de sentimentos sonoros de original alcance. O âmbito deste conjunto de canções é vasto, ocupando uma paisagem sem contornos fixos, muralhas vazias de sentido e lugares ínfimos de dimensões múltiplas que nos fazem vaguear e nos despertam para um senso do óneiros, do paradoxal sonho de olhos abertos que nos atinge no peito com força desmesurada.
Com audições sucessivas, o disco "incha" - e os sentimentos mergulham num vórtice canoro-caótico de estranhas harmonias e dolménicos instantes energéticos. As notas pujam-se, apensam-se frémitos à pele e face a isto - nem chus nem bus!...
E no final de tudo, após várias audições, talados pela experiência - que resta? É difícil dizer. Estes Gift já não são os mesmos, mas é "AM-FM" um labéu ou um exemplo de denodo? Um ledo trabalho ou uma necedade? É um trabalho que se enrodilha nas entranhas, mas até quando? Não sei. O tempo - mísero déspota - o dirá.

02 Dezembro 2004

O regresso

Depois de demasiado tempo recolhido do mundo virtual, eis que consigo finalmente regressar.

O tempo livre nesta nova fase não é tanto como dantes, mas espero conseguir continuar a construir pouco a pouco uma alpondra que leve os visitantes deste espaço ao elegante mundo musical que percorreremos juntos.

Qual puérpera dando à luz, a sonoridade crítica voltou.

Obrigado por continuarem desse lado!

02 Abril 2004

Kraftwerk



Esta noite, no Coliseu de Lisboa, a oportunidade de apreciar ao vivo o donaire germânico dos Kraftwerk. Repetindo o que escrevi num dos tópicos do Forum Sons, será interessante a análise da evolução crono-electro-espacial no espaço electro-mitológico da sonoridade rheinisch da banda, que tantas vezes suscitou reacções de pop-art nouvelle vague como de hermetista assente em pilares indefinidos.
Lá estaremos para confirmar!

23 Março 2004

Harvey Cosgrove - Watermusic



Leitores habituais e atentos da Sonoridade Crítica saberão já da minha predilecção por álbuns obscuros, muitas vezes de edições de autor e poucos exemplares, encontrados no fundo de caixotes de feiras e em pequenas lojas em recantos pouco prováveis de subúrbios de cidade.

O disco que trago hoje é um desses, um exemplar do curiosíssimo Watermusic, de Harvey Cosgrove. Infelizmente nunca consegui encontrar informação sobre o autor, excepto os poucos dados impressos no próprio álbum. A edição é de autor, datada de 1999 e provavelmente muito limitada. Se Cosgrove continua ou não a desbravar o seu experimental percurso é para mim uma incógnita.

E que traz este disco de tão singular? Nada mais que o seguinte: Harvey Cosgrove é um daqueles músicos que vacilam ebriamente entre o visionário e o quasi-louco de alheada noção dos limites do razoável. Para os oito temas presentes neste disco, HC construiu um conjunto inusitado de instrumentos sub-aquáticos que levou para o fundo de um tanque construído para o efeito. O título do álbum, "Watermusic", não mente: as músicas aqui registadas foram realmente interpretadas debaixo de água, sendo esta uma componente integral da sonoridade conseguida. O resultado é fascinante: a musicalidade conseguida assemelha ser coetânea à nossa própria origem, há um contido borbulhar que sobe pelas perturbantes melodias, um movimento azul de que nos apercebemos pelo canto do olho, um grito que não se propaga e um agitar que sentimos sem vermos. Cosgrove dá-nos uma apneia sonora que nos arrasta do obscurante ao apolíneo, sem nunca deixar de se mover num registo a que ouso denominar thalassamousiké , à falta de uma melhor categorização.

Esta é uma das mais intrigantes obras que tive oportunidade de ouvir, por um lado uma imperfeita ingre (se me perdoam o abuso da comparação...), por outro segura senda na brenha do experimentalismo, à qual com o tempo me ineri apaixonadamente.

19 Março 2004

Stealing Orchestra - The Incredible Shrinking Band



Em recente vaguear pelos meus CDs à procura de alguns que gostasse de trazer a este forum, reencontrei um álbum editado o ano passado e que é merecedor de pleno direito de figurar neste espaço. Intitulado The Incredible Shrinking Band, trata-se do segundo álbum dos portugueses Stealing Orchestra. Produto híbrido, radicado numa ideia sonora que, partindo de ideários confluentes em diferentes realidades (geograficamente e temporalmente falando), rapidamente cria uma mescla controlada de ideias e sabores que se cruzam (verticalmente numa demonstração versátil e inventiva de abrangência omni-estilística e horizontalmente na difícil - mas conseguida - criação de um engenhoso prumo que atravessa o álbum dando-lhe uma construção elipsoidal, em que as auto-referências e as zeugmas surgem suspirantes num ambiente de translação contínua).

Não é um disco imediato, a cada audição descobrem-se novas camadas no imenso palimpsesto criado pela banda, num tricotar sensorial em que os samples funcionam como propulsores de ideias que se rasgam sucessivamente em desgarradas helicoidais geradoras de violentas descargas de humores que tanto pungem quanto afagam o ouvinte, que se vê assim no vértice geométrico de uma gigantesca equação de grau indefinido que só a pouco se deixa resolver. A inventividade e originalidade do som garantem um farto melossustento, ao qual não pode deixar de se associar a componente visual, arreigada nas construções imagéticas que acompanham cada tema, numa mímica curiosa da própria base conceitual do trabalho sonoro, vagueando num onirismo pontuado por berrantes gritos de personalidade e estilhaços cirurgicamente ironico-complacentes, mas sabiamente não tentando funcionar como adobe remendador de falhas estruturais (como é infelizmente comum...), mas antes sabendo reboar graciosamente o desenfreado deslizar pelo espectro estilístico usual dos exploradores do binómio urbanu-traditione, que atinge, a espaços, elevados picos de realização nos temas aqui apresentados.

Sem dúvida a explorar - e por várias vezes!

17 Março 2004

Marstein - Red Detour



Há já algum tempo que tenho vindo a ouvir - com um agrado sucessivamente acrescido - o fantástico álbum de estreia dos Marstein, intitulado Red Detour. Tenho pouca informação sobre esta banda - o disco foi-me enviado por um amigo que o encontrou perdido numa pequena loja de discos em Camden e sabendo da minha predilecção por uma certa estética sonora ligada a sombrias correntes nas franjas alternativas da pop, resolveu surpreender-me.

E foi de facto uma surpresa! Estes Marstein são mestres na criação de paisagens flutuantes num éter caótico de choques intra-sonoros e pós-convencionais, quebrando a harmonia clássica da canção pop com um sacudir de notas e riffs que dançam abertamente num esplendoroso manancial de cores e cheiros que nos invadem durante a duração (curta, para um disco destes qualquer duração é sempre curta!...) dos nove temas que compõem o disco. A guturalidade dos assombros rítmicos em alguns dos temas desafia a lineariedade customeira dos géneros que nos habituámos a associar a algumas das sonoridades que por aqui passam - as influências perdem-se num manto aveludado que lima as arestas das referências mais óbvias, misturando-as com a originalidade ciclónica da banda, que enleva o ouvinte num turbilhão vertiginoso de movimentos sónicos e media-construções alicerçadas em terrenos firmes mas por certo agrestes. É por vezes uma música esquizofrénica - a velocidade de alternância entre o aconchego quente dos húmidos dedilhares de cordas e o arrepio constante do trucidar metálico das híbridas e exóticas escalas utilizadas não deixa a mente parar para respirar. É um álbum exigente e sempre mais interessante por isso mesmo.

Enfim, num resumo que arrisca a simplicidade em demasia, é sem dúvida um álbum de eficaz demonstração da nova gama de fabricantes de sons urbano-agrilhoados mas ao mesmo tempo, um conjunto de nove temas nos quais a pop-massificação conceptual anda de braço dado com a constante inovação. Se se cruzarem com este disco, não hesitem - levem-no convosco!

16 Março 2004

Liars - They Were Wrong, So We Drowned



Num simpático e-mail enviado a semana passada, o meu amigo (e insuspeito crítico musical) John Barry Davies dizia-me "I almost can't believe you haven't heard their new album yet! Please grab a copy - now! As I mentioned in my last mail, it's called 'They Were Wrong, So We Drowned'. You can even download it from the band's website - they just made it available in their 'downloads' section."

Conhecendo eu os gostos musicais de JBD como conheço, graças a uma amizade já com alguns anos, lá tentei arranjar uma cópia do último álbum dos Liars. Ouvi-o de uma ponta à outra, com a atenção devida, num rasgado piscar adrenalínico. É um álbum à JBD, sim senhor. E como me conheces, meu amigo! Ao ouvir as invenctivas (latu sensu) canções deste trio não pude evitar recordar-me de certas noites que passámos em tertúlia audiófila em torno das mais obscuras canções que conseguíamos encontrar. Estes Liars são um ranger de dentes biliar, um contido bater de asas que rapidamente gangrena num desesperado e surdo chocalhar de entranhas, pegando nas fundações do admirável novo som e sacudindo-as violentamente.

De onde vem a força deste disco? Vem das berrantes olas sonoras, do ribombar urbano que nos percorre, do telúrico afagar que nos envolve num psicadélico dançar, da indecisão funesta que nos assalta ao apercebermo-nos que as encruzilhadas ficaram para trás quando ainda nem sequer nos tinhamos apercebido delas.

Meu amigo John Davies, uma vez mais um obrigado grande! Fica-me aqui ao lado, este 'They Were Wrong, So We Drowned'. É de facto, um bom álbum!

04 Março 2004

The Ultimate Architects - Elevata



Chegou-me às mãos o EP de uma banda portuguesa que desconhecia, os The Ultimate Architects. O EP chama-se Elevata e contém 5 temas e uma faixa multimédia.

Os TUA apresentam-se com uma prosa pouco linear e que pouco diz sobre o que importa: "A junção de influências das sonoridades electrónicas dos anos 80 às texturas e ambiências de recorte cinematográfico, dentro do formato canção, é uma das permissas do projecto THE ULTIMATE ARCHITECTS. A utilização e exploração da maquinaria, aliada aos sons subvertidos de guitarra e baixo são a base sonora que, ganha uma nova dimensão com o imaginário captado através de projecções, onde o lado negro da natureza humana é exposto sob a forma do (in)consciente colectivo." Depois de ler isto, ouvi o disco com alguma curiosidade, e eis o que me ficou dele...

Aparentemente, os TUA pautuam-se pela vontade de manter um oto-oftalmo-experimentalismo mergulhado numa voragem abissal em que estrupidos e calmaria se mesclam amargamente num feerismo controlado. Digo "aparentemente" porque de facto o que se ouve em Elevata acaba por ser uma espécie de ciclopismo nas conjunções modais e num certo ideal de (des)construção das músicas que remete para algumas bandas de certas correntes (quantas vezes olimpicamente ignoradas...) no seio da electrónica obscura (confesso ter-me por vezes lembrado de uma velha gravação conseguida através de um amigo de longa data, de uma curiosa banda que se movia por caminhos semelhantes, os Bogus Sounds For Bogus Minds, dos quais desconheço o paradeiro actual - note-se porém que embora os caminhos fossem de facto semelhantes, o resultado final era seguramente diferente, com os BSFBM a apostar numa esquizofrenia cromática de circularidades assumidas por entre um quase oceano de referências fundidas num gigantesco bramido colectivo e inquietante, o que é notavelmente distante dos resultados que os TUA atingem).

Que lugar ocupam estes TUA no panorama actual da música que se faz? O perseguir de uma datação concreta aliado ao aparente regozijo imagético de uma estética amateur de falsa recorrência ao nível interno leva a crer que os impactos em que apostam serão ultimamente ditados pelo eventual transparecer (ou não) de uma atitude fundeada em tradições que num plano multi-dimensional de vectores métricos acaba quase por traçar um potencial rumo apóstata. O que, enfim, é um rumo entre tantos outros.

03 Março 2004

Franz Ferdinand - Franz Ferdinand



Am 28.Juni 1914 fanden in Sarajevo Manöver statt, die Franz Ferdinand besuchen wollte. Obwohl Befürchtungen bestanden, dass es zu Unruhen kommen könnte, reiste der Thronfolger mit seiner Frau nach Bosnien. Das "Attentat von Sarajevo" beendete das Leben des Thronfolgerpaares und war der Anlass für den Ausbruch des Ersten Weltkrieges - Este texto conta parte da história de Franz Ferdinand, o Arquiduque assassinado em Sarajevo, assassinato esse que eventualmente levaria ao romper da Primeira Guerra Mundial. Pergunte-se pela rua e se calhar pouca gente conhecerá esse episódio histórico, o que não significa que não reconheçam o nome. De facto, ultimamente o nome Franz Ferdinand anda a espalhar-se cada vez mais, tudo graças a um quarteto de Glasgow que tem a honra de inaugurar a Sonoridade Crítica.

Os Franz Ferdinand movem-se naquela zona do peculiar universo rock em que a circularidade sonora se alterna com o cromatismo esventrado da interpretação. E de forma tão cutânea o conseguem, que a sua competência não passa despercebida a ninguém - o mais empedernido ouvinte assumirá com facilidade um certo mimetismo com a construção por vezes modular, outras vezes a roçar um certo hermetismo tão típico de algum som de garagem escocês, outras vezes ainda a delirar num turbilhão glandular pontuado pela força inusitada dos riffs que desprendem.

Este primeiro trabalho de longa duração, conquanto pouco imaginativo no título (intitula-se Franz Ferdinand...), revela-se assim, para apreciação dos mais exigentes, algo que quase poderiamos considerar uma transferência helicoidal de sensações entre a voracidade artístico-imagética dos quatro músicos e o plano sensorial de quem escuta. De facto, há nestes temas uma assumida transumância de notas por entre um tapete circular de ambientes imaginativos que mergulham de forma estremunhada no íntimo da rotina mundana, virando-a do avesso e dando-nos razões para saltar.

A ouvir, portanto.